UNITED KINGDOM - MAY 22: Sergio DIAS and Os Mutantes during a 2006 concert in the United Kingdom. (Photo by Robin Little/Redferns/Getty Images)

Como eu me apaixonei pelo “Mutantes”

July 17, 2013 | By Brian Fores | All Things Music Licensing, Music

Roqueiros do Brasil agora fazem parte do Guestlist by Getty Images

Tive a sorte de crescer em uma família grande e musical. Minha mãe era uma talentosa pianista e meu pai tinha uma paixão séria por música clássica e possuía uma coleção de discos inigualável. Sendo filho de imigrantes cubanos, também tive uma boa dose de influência de música afro-cubana – as composições de piano de Ernesto Lecuona estavam muitas vezes na ponta dos dedos de minha mãe e sua estatura como compositor era uma fonte de orgulho cultural.

Sou o caçula de nove filhos (sim, nove!), portanto acabei herdando algumas grandes influências, principalmente de um irmão mais velho que é um ávido colecionador de discos e especialista em tudo o que for relacionado ao rock’n’roll, desde garage, psych e folk britânico (Pentangle é um dos favoritos) até o nascimento do punk e além – o homem é uma enciclopédia ambulante desse estilo musical. Na época eu tinha 12 anos, e já ouvia Elvis, Fats Domino, Buddy Holly, Os Beatles, Beach Boys, os Stones, os Kinks, The Who e The Doors, entre outros. Minha primeira fita cassete, na época dos 12 e13 anos, foi Band of Gypsies, do Hendrix.

Absorvi muita coisa nesse período, mas não havia formado totalmente meus próprios gostos musicais. Sendo uma criança dos anos 90, eu estava completamente exposto ao momento musical daquela época: Nirvana, Pearl Jam, Red Hot Chili Peppers, e, sim, eu não me importo com o que as pessoas dizem, Smashing Pumpkins. Inclusive eu estava na Ilha de Randall durante o Lollapalooza de 1994 quando os Pumpkins estavam no auge, mas realmente foram os Beastie Boys que roubaram o show.

Talvez o artista que teve maior impacto em mim – e continua me dando boas recordações – é Beck . Seu inteligente jogo de palavras, o senso de ironia, a estética lo-fi e a síntese coerente de gêneros diferentes ainda são inovadores nos dias atuais, e sua influência na cena musical índie de hoje é inegável (MGMT e Foxygen são dois exemplos).

Mas, enquanto a maioria das pessoas citariam Odelay como seu ápice, para mim, o álbum que sempre foi o favorito é Mutations . Este grande lançamento acústico, com suas texturas psicodélicas e inflexões folclóricas, realmente entrou dentro de minha cabeça e permanece lá desde então. Mutations, ao que parece, é uma referência a ícones do rock brasileiro, uma banda que tem tido uma grande influência sobre Beck, assim como muitos outros astros do rock, desde David Byrne e Devendra Banhart até The Flaming Lips e Kurt Cobain. Inclusive o líder do Nirvana, durante uma turnê brasileira, tentou fazer contato com Arnaldo Baptista, um dos membros fundadores da banda. Uma canção em particular dos Mutantes, “Tropicália”, traz não só os ritmos e instrumentos do estilo brasileiro, mas também o nome do movimento artístico e político do qual Os Mutantes faziam parte.

Intrigado, cavei mais fundo e peguei um trem de NJ (New Jersey) para uma loja de discos em West Village (gente, isso foi antes dos serviços de streaming estarem disponíveis por toda parte e antes do CD morrer!) onde encontrei os dois primeiros álbuns do grupo: Os Mutantes e Mutantes, lançados em 68 e 69, respectivamente. Imediatamente corri para casa e coloquei os CDs em meu aparelho de som.

Nas primeiras buzinas de “Panis Et Circenses” eu pensei: “Ok, Sgt. Peppers da America do Sul”. É evidente que esses caras tinham ouvido os Beatles. No entanto, essa comparação não faz justiça ao album. Quando me acomodei, percebi que era algo completamente diferente e finalmente entendi o que Beck disse sobre eles. O californiano ouviu em Os Mutantes uma certa sensibilidade que ele estava tentando alcançar, uma sensibilidade que tinha levado à sua obra-prima, Odeley – apenas 30 anos antes!

O que eu ouvi foi uma mistura caleidoscópica de música brasileira e rock, solos de guitarra (“A Minha Menina”) junto com momentos de beleza surreal (“O Relógio “), e um experimentalismo destemido com uma abordagem mais próxima de John Zorn do que Beatles. Ali estava a estética lo-fi que antecipa a mentalidade Punk DIY e do tipo de abordagem de gravação “home made”, tão defendida hoje em dia por bandas indies como Woods e tantas outras. Além disso, o absurdo pop, o senso de ironia através de comentários culturais e críticas políticas são quase intercalados no tecido do indie atual. Os Mutantes podem ser tanto lúdicos quanto divertidos, mas pesados e profundos ao mesmo tempo, algo nada fácil de conseguir.

Depois de décadas de silêncio, a banda se reuniu e lançou Haih … Ou Amortecedor … em 2009. Embora sem contar a presença de Rita Lee e o Arnaldo Baptista, o único membro original remanescente, Sérgio Dias continuou a tradição dos Mutantes de forma espetacular, e o álbum – que contou com contribuições de lendas brasileiras como Tom Zé e Jorge Ben – recebeu grande aclamação dos críticos. Em 2013 vimos o lançamento de Fool Metal Jack, cuja faixa-principal é uma gigante grito anti-guerra; e faixas como “Look Out” e “Valse LCD” manteve a estatura da banda como pesos pesados psicodélicos. Ao mesmo tempo, “To Make It Beautiful” e “Eu Descobri”, escrita pelo ícone brasileiro Gilberto Gil, traz um toque de balada luz psych para o lançamento.

Para uma banda que percorreu mais de quatro décadas de história do rock, contando com certa obscuridade virtual fora do Brasil por muitos anos até o reconhecimento mundial, o seu som original se conversa intacto. Atualmente em turnê, o grupo continua a sendo mais relevante e enérgico do que nunca, enquanto ainda caminham adiante e descobrem novos territórios.

Para ouvir as músicas dos Mutantes disponíveis para licenciamento através do Guestlist da Getty Images, clique aqui .

More posts by this author

  • Megan

    bestchapstick.net